Em comemoração aos 40 anos da Associação, a ANPET começa agora a publicar uma série especial de entrevistas com ex-presidentes e personalidades marcantes da vida associativa. A primeira delas é com Cira Pitombo, professora da Escola de Engenharia de São Carlos da USP, que presidiu a ANPET no biênio 2023-2024.
No início dos anos 2000, como mestranda da Universidade de São Paulo Cira passou a submeter artigos científicos para os congressos da ANPET. Ela admirava de longe os professores e pesquisadores que movimentavam a associação e reconhecia que estar ali era importante para sua formação. Duas décadas depois, ela já passou por diferentes papéis dentro da entidade: coordenadora temática, diretora científica, presidente e, hoje, diretora de equidade e diversidade.
Uma área que está em tudo
Com formação em Engenharia Civil e atuação em planejamento e operação de sistemas de transportes, Cira explica o alcance da área para quem está fora dela. "O transporte está envolvido com o nosso dia a dia desde a hora que acordamos até a hora que vamos dormir. Mesmo que a gente não saia de casa, o transporte está em tudo."
A engenharia de transportes abrange desde o planejamento da mobilidade urbana (novas linhas de metrô, oferta de transporte público, integração entre modos de transporte) até infraestrutura de rodovias e ferrovias, segurança viária e acessibilidade. É uma área que exige tanto rigor técnico quanto sensibilidade social. "Trabalhamos com modelos, com matemática, com equações, e ao mesmo tempo tem um impacto social bem importante, porque qualquer melhoria impacta toda uma sociedade."
Os primeiros passos na ANPET
A aproximação de Cira com a ANPET seguiu o caminho natural de quem entra na pós-graduação em Engenharia de Transportes no Brasil. Além do prestígio acadêmico dos congressos, havia outro atrativo: reunir pesquisadores e profissionais de todo o país em um único lugar. "Os congressos sempre foram uma oportunidade excelente de ver os amigos de outros estados, ter contato direto com professores que são nossas referências."
Depois de um período como docente na UFBA, ela retornou a São Carlos como professora e, a partir de 2013, assumiu a coordenação temática de duas áreas dentro da ANPET, Modelos e Técnicas de Planejamento de Transportes e Planejamento Territorial do Transporte, por cerca de seis ou sete anos. "Foi um período de muito aprendizado, desde gestão científica até conhecer o que os colegas e alunos estavam pesquisando. E de muita responsabilidade também."
O que faz um diretor científico
Em 2019, Cira assumiu a diretoria científica da ANPET, cargo que a colocaria diante de um dos períodos mais desafiadores da história da associação.
O trabalho é, em essência, garantir a integridade e a qualidade do processo de avaliação dos trabalhos submetidos ao congresso: coordenar os coordenadores temáticos, acompanhar a alocação de artigos para revisores especializados, gerenciar prazos e resolver problemas: do atraso nas revisões a questões de plágio e, mais recentemente, a questões técnicas relacionadas ao uso de inteligência artificial. "O diretor científico sabe o que acontece em todas as áreas. É gerenciamento mesmo", resume.
Pandemia: recálculo de rota
O último congresso presencial, antes da pandemia, em Balneário Camboriú (SC), foi um dos maiores da história da ANPET: muitas submissões, muitos inscritos, tudo dentro da receita conhecida. Então veio 2020.
"A presidente na época era a Helena Cybis, e ela falou uma coisa que me marcou: 'A ANPET nunca deixou de promover um congresso e não vai ser agora'", recorda Cira. O que se seguiu foi um "recálculo de rota" — ampliar prazos, adaptar formatos, reunir a equipe em torno de uma única certeza: o congresso ia acontecer.
O número de submissões em 2020 foi bem menor que o esperado. Em 2021 cresceu, mas o formato ainda era digital. Em 2022, o congresso voltou a ser presencial — em Fortaleza (CE), ainda num contexto de restrição de recursos. "Foi um dos congressos mais emocionantes, cheio de reencontros e com trabalhos de bastante qualidade, porque parte desses trabalhos não tinha sido enviada nos anos anteriores, já que muitos pesquisadores precisavam de laboratório e ficaram parados."
A comunidade, segundo ela, nunca deixou a associação na mão. "A gestão da ANPET precisa da comunidade, e vice-versa. Se ninguém submeter trabalhos científicos e técnicos, não tem congresso. E o que acontece com a comunidade de engenharia de transportes no Brasil?"
Presidente e o papel da continuidade
No biênio 2023/2024, Cira ocupou a presidência da ANPET, função mais voltada à gestão geral, à articulação institucional e à representação da entidade. Ela destaca o que considera central na cultura da associação: a continuidade. "A ANPET é isso: continuidade de um trabalho que vem sendo feito com todo cuidado, um trabalho sério, voluntário."
Equidade, diversidade e o papel social da associação
Hoje, Cira atua como diretora de equidade e diversidade, uma função que, diz ela, recebeu como um presente. A ANPET não se limita à divulgação científica: também discute mobilidade urbana com recorte de gênero, vulnerabilidade de mulheres no transporte público, acessibilidade para idosos e o encorajamento de meninas do ensino médio para as engenharias.
"A ANPET não se preocupa só com a parte técnica. Ela também se preocupa em trazer a inclusão, desde a mobilidade, desde o gênero, desde o acolhimento de centros menores."
Esse espírito inclusivo aparece também na geografia dos congressos. Embora os principais centros de pesquisa estejam localizados, predominantemente no Sul e Sudeste, a Associação foi incorporando, ao longo dos anos, instituições e pesquisadores do Nordeste, do Norte e do Centro-Oeste. "Ficamos muito felizes quando há trabalhos premiados de centros menores. Isso mostra que a associação está cumprindo seu papel de integrar o Brasil inteiro e divulgar bons trabalhos científicos de forma ampla e democrática."
40 anos e um congresso construído com amor
Em 2026, a ANPET completa 40 anos. O congresso será realizado em Búzios (RJ). "Tenho certeza que será um encontro mais que especial. Não só pela qualidade dos trabalhos, não só pelos aprendizados, não só pela integração que a associação promove, mas principalmente porque é um congresso comemorativo que está sendo construído com muito amor."
"São essas coisas que me emocionam bastante na associação. Fico muito orgulhosa de fazer parte dela”.
Assista à entrevista com Cira Pitombo:
