Segundo presidente da ANPET, entre 1989 e 1992, Wagner Colombini Martins foi um dos fundadores da Associação e concedeu entrevista à série especial que celebra os 40 anos da entidade, ouvindo ex-presidentes e personagens centrais da sua história. Na conversa, relembra a trajetória profissional que o levou da Escola Politécnica ao IPT, o encontro que originou a associação e defende, ainda hoje, a vocação estritamente técnica que ajudou a consolidar.
Do IPT ao mestrado na Inglaterra
Formado em Engenharia Civil pela Escola Politécnica da USP em 1972, Wagner começou a carreira no Instituto de Pesquisa Tecnológica (IPT). Em 1974, foi para a Inglaterra fazer mestrado em transportes e, ao voltar um ano e meio depois, integrou-se ao recém-criado agrupamento de transportes do instituto, que passou a chefiar pouco tempo depois. No IPT, dedicou-se a pesquisa e consultoria técnica em transportes, tanto para o governo do estado de São Paulo quanto para outras esferas públicas, com trabalhos que iam da modelagem de transportes ao planejamento de sistemas.
Em 1989, decidiu deixar o IPT para fundar a Logit, empresa de consultoria em engenharia de transportes que atua até hoje no Brasil e no exterior.
Um fórum inspirado na Inglaterra
A semente da ANPET foi plantada no início dos anos 1980, quando Wagner foi convidado pelo CNPq para coordenar, em Brasília, um programa de desenvolvimento científico e tecnológico na área de transportes. Cedido pelo IPT, passou seis meses na capital federal montando o documento e, sobretudo, conversando com pesquisadores de universidades e centros de pesquisa de todo o país.
Nesses encontros, ele repetia uma observação vinda de sua experiência inglesa: fazia falta no Brasil algo como a University Transport Studies Group Conference (UTSG), conferência anual que reunia os grupos britânicos de pesquisa e pós-graduação em transportes. A ideia foi bem recebida por todos, mas ninguém tomava a frente. "Eu fiquei pressionando bastante", relembra. Da insistência veio uma primeira reunião na COPPE/UFRJ com o grupo que viria a fundar a ANPET: Rômulo Orrico e Márcio Ramos (COPPE), José Eugênio Leal, Anísio Brasileiro (Pernambuco), Luis Antonio Lindau (Porto Alegre), Orlando Strambi (Poli), entre outros. Da reunião saiu a decisão de criar a Associação, e Rômulo Orrico foi escolhido por aclamação como o primeiro presidente.
Dois mandatos e o legado da rotatividade
Wagner foi eleito segundo presidente da ANPET, para o biênio 1989-1990, e reconduzido em seguida para o biênio 1991-1992. Ao ser sondado sobre um terceiro mandato, recusou. Para ele, a gestão deveria ser rotativa e envolver cada vez mais pessoas na responsabilidade de manter a Associação viva. Outras decisões daquele período seguem marcando a identidade da ANPET até hoje: a realização de congressos anuais sediados de forma itinerante pelos centros de pesquisa das universidades brasileiras, cada um assumindo a organização e a captação de patrocínio.
Foi nesse período também que Wagner se posicionou fortemente contra a ideia de a ANPET assumir uma atuação política. Na sua leitura, uma entidade científica e tecnológica precisava se preservar como espaço técnico, sob risco de perder credibilidade. A atuação política caberia a entidades setoriais como a ANTP e a NTU; à ANPET, o compromisso com a produção científica, a formação de pessoal e a disseminação de boas práticas.
A contribuição da associação
Para Wagner, o papel da ANPET é duplo: contribuir com o desenvolvimento do estado da arte, por meio da pesquisa, e com o estado da prática, por meio da formação e da disseminação de conhecimento. Para os pesquisadores, é avançar em conhecimento novo; para a sociedade, é aplicar esse conhecimento em transportes melhores. Ele destaca que, ao longo das últimas quatro décadas, essa vocação foi mantida com base em participação voluntária e comprometimento coletivo, sem que a Associação pertencesse a nenhuma pessoa ou instituição em particular. "Não tem ninguém que é dono da ANPET, ela é de toda a comunidade", resume.
Um pedido para os próximos anos
Ao olhar para o futuro, Wagner defende que os centros de pesquisa brasileiros invistam mais no mestrado profissional e retomem cursos de formação para técnicos de prefeituras e órgãos gestores de transporte, à distância ou presencialmente. Para ele, boa parte da fragilidade atual da gestão pública de transportes se explica pela ausência de treinamento continuado das equipes que assumem essas funções.
Também vê espaço para a ANPET estreitar laços com países do sul global, em especial da América Latina e da África, em uma troca horizontal de experiências, aproveitando o protagonismo brasileiro em soluções como o BRT.
Um trabalho de comunidade
Wagner celebra a longevidade da Associação e o fato de ela seguir viva por meio de sucessivas gerações de pesquisadores. Faz questão de lembrar nomes que marcaram sua trajetória e a história da ANPET: Rômulo Orrico, primeiro presidente; Antônio Galvão Novaes, "que me deu apoio desde o começo, um cara maravilhoso"; Marilita Braga; José Eugênio Leal; Anísio Brasileiro; Luis Antonio Lindau; e Reinaldo Sete, que abraçou o periódico Transportes no início. "Eu gosto muito de toda a comunidade, do espírito da comunidade, que é de fazer o melhor, de querer compartilhar."
