Um grupo de pesquisadores de transportes se reuniu no Rio de Janeiro em 1987 e decidiu criar uma associação nacional para reunir quem estudava a área no país. A iniciativa partiu do professor Rômulo Dante Orrico Filho, da COPPE/UFRJ.
Quase quatro décadas depois, ele é o primeiro entrevistado da série especial que a ANPET lança para celebrar seus 40 anos, uma iniciativa que vai ouvir ex-presidentes e personagens centrais da história da associação.
Engenheiro civil, Rômulo Orrico trabalhava na construção de estradas na Bahia quando veio ao Rio de Janeiro fazer o mestrado em transportes na COPPE, em 1974. O curso levou cinco anos. Nesse período, trabalhou na Secretaria de Transporte, na empresa pública de ônibus CTC e fez um estágio de seis meses em Paris. Defendeu a dissertação em janeiro de 1977 e foi convidado pelos próprios membros de sua banca para integrar a COPPE como professor e pesquisador. Em março de 1979, entrou formalmente para o recém-criado Programa de Engenharia de Transportes.
A reunião que deu origem à ANPET
A ideia de fundar uma associação nacional surgiu de uma constatação feita em conversa com colegas. "Eu vi que não éramos tantos assim", recorda. Com o apoio de professores como Jofre Dan e Ricardo Bárcia, ele convidou todos os cursos de mestrado e especialização em transportes do Brasil para uma reunião no Rio de Janeiro.
Compareceram representantes de instituições de todo o país: COPPE e PUC-Rio; IPT e USP, em São Paulo; UFSC, em Santa Catarina; UFRGS, no Rio Grande do Sul; UFMG, em Minas Gerais; UnB, em Brasília; UFBA, na Bahia; UFPE, em Pernambuco; e USP São Carlos. Também estiveram presentes representantes do CNPq e do IPEA. "A proposição foi minha, de fundar a associação", diz ele.
A ANPET foi criada em 1987. Seis meses depois, em agosto do mesmo ano, realizou seu primeiro congresso, em Brasília, coordenado pela professora Yaeko Yamashita da UnB, com 150 pessoas presentes na abertura. Os anais daquela edição eram folhas soltas dentro de uma pasta dobrável de papel cuchê.
O que é a engenharia de transportes
Para Orrico, a engenharia de transportes é essencialmente uma área sistêmica. "Vários outros campos do conhecimento são utilizados ali", explica. Psicologia, sociologia, economia, urbanismo, demografia, engenharia civil e engenharia de produção se combinam para entender e planejar o deslocamento de pessoas e cargas.
Ele cita uma frase que seu orientador de doutorado, o geógrafo britânico David Briggs, exibia na primeira aula de cada turma: "Transporte não tem um fim em si mesmo." A ideia é que transportes existem para servir à vida das pessoas, às cidades e à economia, e não como um fim em si.
Marcos ao longo da história
Rômulo esteve presente em praticamente todos os congressos da ANPET desde a fundação. "Até 2014, não faltei a nenhum", afirma. "É um espaço positivo para se estar. Me sinto em casa na ANPET."
Em 1992, no congresso do Rio de Janeiro, a associação passou a exigir texto completo para submissão de artigos, em vez de apenas resumos. A mudança gerou receio de queda na participação. O resultado foi o oposto: o número de artigos submetidos aumentou.
No início dos anos 1990, um edital da FINEP para redes cooperativas de pesquisa mobilizou pesquisadores de todo o Brasil. Espontaneamente, eles marcaram uma reunião na COPPE para se organizar antes de apresentar propostas à agência. "Saiu porque é um ambiente de ação cooperativa", avalia Rômulo. Dali surgiram diversas redes de pesquisa que estruturaram a produção científica da área nos anos seguintes.
Em 2001 e 2002, quando o Congresso Nacional discutia a criação das agências reguladoras de transporte, a academia foi chamada a contribuir. Rômulo foi um dos quatro professores que depuseram perante a comissão da Câmara dos Deputados, ao lado de José Eugênio Leal, Anísio Brasileiro e Joaquim Aragão. "A gente foi ouvido".
O papel da ANPET, na visão de quem a fundou
A ANPET ocupou um espaço que o professor considera necessário desde o início. "Ela permitiu à academia fazer três coisas interligadas", resume. A primeira é divulgar o que a pesquisa produz. A segunda é construir uma ponte com os setores da sociedade. A terceira é abrir espaço para que pesquisadores e estudantes brasileiros pudessem crescer profissional e academicamente.
Ele ilustra o papel de ponte com um episódio pessoal. Convidado pelo Ministério dos Transportes para representar a academia num evento sobre carga, foi aos anais do congresso anterior da ANPET e projetou apenas os títulos dos artigos relacionados ao tema. "Tinha muito slide", diz. Para ele, aquela lista mostrava, de forma concreta, o que a associação acumula e oferece ao setor.
Orrico define a ANPET não como uma universidade, mas como um canal das universidades e dos pesquisadores, "até certo ponto, porta-voz".
A associação não tem presença formal em instâncias como o Comitê Gestor do Fundo Setorial de Transportes, mas sempre manteve interlocução com esses espaços por meio de seus membros. Quando o comitê abriu para discussão, a ANPET se pronunciou com um documento de diretrizes. "Porque tem gente lá que faz a ponte", explica.
"Esse papel ela fez, faz e ainda vai continuar fazendo", afirma.
Assista à entrevista com Rômulo Orrico Filho:
