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Em 1995, Helena Beatriz Bettella Cybis chegou ao seu primeiro congresso da ANPET, em São Carlos. Era o nono congresso da associação. Ela estava entrando para um mundo ainda bastante informal: poucos grupos de pesquisa, relações pessoais, processos manuais. Trinta congressos depois, ela olha para o caminho percorrido e reconhece o quanto a associação e a área mudaram juntas.

Professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e ex-presidente da ANPET, Helena é mais uma entrevistada da série especial que a associação lança para celebrar seus 40 anos.

Uma escolha feita na Inglaterra

A trajetória de Helena na engenharia de transportes começou fora do Brasil. Ela fez mestrado e doutorado na Universidade de Leeds, na Inglaterra, com foco em modelagem de alocação de tráfego, área que, nos anos 1980, vivia um momento de expansão impulsionado pelo avanço dos recursos computacionais. "Todos aqueles recursos de modelagem acabaram tendo oportunidade de se sofisticarem em função da oportunidade de processamento que estava surgindo."

A decisão por transportes teve um empurrão de um colega que ela encontrou em Leeds: Luis Antônio Lindau, que depois se tornaria seu colega na UFRGS e um dos presidentes da ANPET. "Eu identifiquei que em todas as áreas que existiam na Universidade de Leeds, a área de transportes era uma das melhores oportunidades para engenheiros civis."

De volta ao Brasil, ingressou na UFRGS como parte de um grupo jovem que queria ir além da engenharia de infraestrutura tradicional (rodovias, pavimentação, projetos viários) e desenvolver pesquisa em planejamento, operação e economia de transportes. "Eram poucos os grupos que trabalhavam dessa forma. A área de planejamento e operação de transportes só foi crescer e se consolidar a partir da década de 90."

Envelopes pelo correio e uma mala de artigos

O envolvimento de Helena com a gestão da ANPET começou em 1999, através de um convite do professor José Eugênio Leal. O que ela encontrou era uma estrutura bastante diferente da de hoje.

"Quando eu ingressei na ANPET, toda a gestão dos congressos existia na forma de papel. Os autores enviavam seus artigos pelo correio - cinco, seis cópias - para a secretaria." A secretaria, por sua vez, redistribuía fisicamente os artigos para os avaliadores, que preenchiam fichas e as devolviam também pelo correio. No final do processo, a secretária Teresa reunia tudo (artigos, fichas de avaliação) numa grande mala e a levava pessoalmente para a reunião do comitê científico.

"Essa era a história do comitê científico na década de 90", diz Helena. "Todo esse processo que hoje a gente faz de forma descentralizada era feito centralizado, em cima de material físico."

A virada veio durante a gestão de Lindau, quando Helena atuou como diretora executiva. Foi nesse período que a ANPET desenvolveu seu primeiro sistema eletrônico de submissão, um trabalho que envolveu reuniões para definir áreas temáticas, critérios de avaliação e toda a lógica do processo. "Isso foi a gênese do que hoje são nossas áreas temáticas."

Crescer sem perder o foco

Ao longo dos anos em que atuou na diretoria científica, por cerca de seis anos, intermitentemente, e depois como presidente, Helena acompanhou a associação navegando por transformações que iam além da tecnologia.

Um dos desafios foi a chegada dos cursos de graduação em engenharia de transportes, que criaram uma nova demanda: como abrir espaço para alunos que ainda não desenvolvem pesquisa no sentido estrito, mas têm formação sólida na área? "Era extremamente importante que a gente atraísse esses alunos, mas com oportunidades e contextos diferentes." Daí surgiram iniciativas como a ANPET Jovem.

Outro desafio foi a presença nas redes sociais. "Como a ANPET colocaria sua imagem, seus serviços nas redes? Isso também foi um processo muito discutido." Cada nova demanda exigia que a associação se ajustasse sem perder de vista seu núcleo. "O coração da ANPET é ensino e pesquisa. Agora, nós ensinamos para formar profissionais para o meio. Nós fazemos pesquisa para gerar conhecimento que seja útil para o meio também."

O setor produtivo como interlocutor

Uma preocupação recorrente na gestão de Helena foi fortalecer o diálogo entre a academia e o setor produtivo público e privado. Na sua visão, essa ponte é estrutural: são as empresas e instituições que trazem os problemas reais que alimentam a pesquisa. "Sempre foi um desafio histórico trazer o setor produtivo para conhecer o que é feito nas universidades e, ao mesmo tempo, trazer sua visão e seus problemas para servir de estímulo às pesquisas."

Durante sua gestão como presidente, ela incluiu na diretoria um membro especificamente responsável por essa interface, alguém que não fosse necessariamente acadêmico, mas que fizesse a ponte com o meio. Com o tempo, o próprio amadurecimento da área foi criando esse canal de forma mais orgânica: muitos ex-alunos dos programas de pós-graduação foram ocupar posições no setor público e privado. "A ANPET gera afetos. Uma vez que as pessoas participem, elas criam um carinho pela associação, e isso também é importante para construir canais favoráveis de relacionamento com o setor produtivo."

40 anos, muitos desafios vencidos

Helena acompanhou a ANPET desde o que ela chama de "infância" da associação: "quase um grupo de amigos, localizados em poucas universidades". Ver esse grupo se transformar numa associação reconhecida internacionalmente é, para ela, motivo de satisfação.

"Pesquisadores internacionais que participam dos nossos congressos saem com uma impressão muito boa pela qualidade do congresso, pelo ambiente que a gente promove." Ao mesmo tempo, ela não romantiza: manter a relevância foi sempre uma luta consciente. "É importante mostrar para a comunidade nossa relevância e a qualidade do serviço que fazemos."

Para ela, o principal patrimônio que garante o futuro da ANPET não está nos processos nem nas ferramentas: está nas pessoas. "Enquanto houver esse envolvimento e esse carinho com a ANPET, a gente vai continuar vencendo os desafios que vêm pela frente."

Assista à entrevista com Helena Cybis: