Orlando Fontes Lima foi presidente da ANPET por dois mandatos consecutivos, nos biênios 2009-2010 e 2011-2012. Mas sua ligação com a associação começa muito antes da presidência: ele foi ao seu primeiro congresso ainda no início do mestrado, em meados dos anos 1980. Levou um artigo que não foi aprovado. Foi mesmo assim. No ano seguinte, o artigo passou. E desde então, em quase quatro décadas, ele faltou a apenas dois ou três encontros. "A ANPET tem uma importância muito grande na minha formação, tanto profissional quanto pessoal", diz ele.
Professor titular da Faculdade de Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo da Unicamp, na área de logística e supply chain, e ex-presidente da associação, Orlando é mais um entrevistado da série especial que a ANPET lança para celebrar seus 40 anos.
Assista a entrevista com Orlando Fontes Lima:
Uma escolha pela abordagem sistêmica
A trajetória de Orlando começa na engenharia naval da Escola Politécnica da USP: uma escolha que, dentro do próprio curso, o levou para a área de transportes. "Sempre tive uma abordagem mais sistêmica, sempre gostei mais dos sistemas." Foi nas disciplinas de transportes que ele encontrou os professores que marcariam sua trajetória, entre eles o orientador Nicolau Golda e o professor Riva. "Riva foi a pessoa que mais me sensibilizou para essa área. Dava hidrovias na época, e a hidrovia permite discutir questões de transportes de forma mais de planejamento e operação, que foi a área que eu acabei seguindo."
Depois de um breve período no mercado, ele voltou para a academia a convite de Golda, fez mestrado e doutorado na Poli, trabalhou em consultorias e ingressou como professor. Mais tarde, prestou concurso para a Unicamp, onde está até hoje.
O que a ANPET fazia pelo pesquisador jovem
Para Orlando, o valor dos congressos da ANPET sempre foi duplo, e a segunda camada é mais importante do que a primeira. "O Congresso tem questões explícitas (qualidade dos trabalhos, conteúdos) e questões implícitas que, na minha opinião, são até mais importantes."
O que ele chama de questões implícitas é a experiência de formação que acontece fora das salas de apresentação. "A ANPET me apresentava as referências do meu lado. Era o livro que eu li e o autor estava ali assistindo à palestra junto comigo, ou apresentando alguma coisa.” Para um pesquisador em formação, esse contato direto com referências da área, em ambiente informal, acessível, é algo que nenhum currículo reproduz.
Ele vai além: a ANPET também oferecia um modelo de como ser pesquisador. "Esse papel transcende as formações individuais, é apresentar uma referência do que é ser um pesquisador, do que é uma ética de trabalho, e tudo em volta do setor de transportes."
Uma associação que nasceu pequena e cresceu consistente
Orlando acompanhou a ANPET desde o que ele chama, com bom humor, de suas primeiras "setenas": uma metáfora da antroposofia, que descreve crises de desenvolvimento a cada sete anos. "Se a gente olhar a ANPET, ela está chegando na sexta setena. Quando eu fui presidente, ela estava chegando na maturidade, perto dos 20 e tantos anos."
Naquela época, a associação ainda era pequena e funcionava de forma bastante informal. O orçamento anual girava em torno de R$ 15 mil a R$ 20 mil. Não havia profissionalização. A administração dependia quase inteiramente de uma secretária, a Teresa. "Todo mundo sempre trabalhou de forma colaborativa, sem receber salário."
Foi nesse período que a ANPET enfrentou uma decisão que Orlando considera crucial: uma proposta de fusão dos congressos com a NTU, associação voltada ao transporte público. Ele foi contra. "Eu acho que se a gente tivesse feito isso, teria sucumbido e virado uma parte da NTU. A ANPET manteve a pluralidade: ferrovia tem espaço, aéreo tem espaço, hidroviário tem espaço, logística tem espaço. Esse é um caminho muito distinto."
Outro movimento importante de suas gestões foi aproximar a ANPET dos fundos setoriais de pesquisa, um jogo político que a associação ainda não dominava. "É um nível de jogo diferente, e a gente ainda estava nessa coisa." A ponte foi feita com apoio da professora Maria Alice, da UnB, que ajudou a conectar a associação aos ministérios. "Foi a organização que entrou nesses novos espaços, não as pessoas individualmente."
Inteligência artificial e o desafio de continuar relevante
Para Orlando, um dos maiores patrimônios que a ANPET tem para proteger nos próximos anos é exatamente esse ambiente de formação ética. E ele está sob pressão: "A chegada da inteligência artificial vai balançar muito essas coisas. Como é que a gente desenvolve os princípios éticos de um pesquisador para usar a IA?"
A resposta, para ele, não está nas palestras nem nos documentos oficiais. Está no cafezinho. "Não é nesse espaço formal, é o jovem vendo um professor que é referência dele falando como usa a IA, discutindo isso de forma aberta. Você vai disseminando numa forma de relações."
Olhando para os próximos anos, ele vê dois grandes desafios. O primeiro é manter a ANPET atrativa para as novas gerações. "O jovem tem que querer vir à ANPET. Quem está na ANPET hoje só está porque quando era jovem gostou da ANPET. Se o seu aluno não gostar, esse é o grande desafio." O segundo é perpetuar a presença da associação como instituição relevante na sociedade técnica, política e empresarial. "A ANPET tem que se manter presente e importante para a sociedade."
Aos 40 anos, ele avalia a trajetória com satisfação e sem falsa modéstia sobre o que ela representou para ele. "Se o setor de pesquisa, ensino e trabalho em transportes no Brasil tem uma cara bem definida, a ANPET teve uma boa parte nisso. Muito do que eu sou, sou pela ANPET. Não tenho dúvida."
