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Em meados dos anos 1990, Márcio D'Agosto era coordenador de transporte em uma das maiores fábricas de bebidas do mundo. Engenheiro mecânico com passagens por distribuidoras de petróleo e de GLP antes de chegar à Coca-Cola, tinha uma trajetória sólida no mercado. Mas quando problemas de otimização de frota começaram a exigir um conhecimento que ele não tinha, tomou uma decisão que poucos tomariam: pediu demissão e voltou à universidade. "Se eu for pro mercado, talvez eu nunca mais volte", pensou ao optar pelo doutorado. 

Professor titular da UFRJ e presidente da ANPET nos biênios 2013-2014 e 2015-2016, Marcio D'Agosto é um dos entrevistados da série especial que marca os 40 anos da associação. 

De engenheiro mecânico a pesquisador de sustentabilidade

O mestrado no IME, inicialmente voltado à logística, acabou resultando numa dissertação sobre o que hoje se conhece como BRT (Bus Rapid Transit). Foi lá também que D'Agosto teve o primeiro contato com a ANPET, em 1997. No ano seguinte, participou do congresso em Fortaleza pela primeira vez com um artigo científico e com uma comunicação técnica sobre sustentabilidade em transporte, tema que definiria sua carreira.

O doutorado veio na COPPE/UFRJ, no recém-criado Instituto Virtual Internacional de Mudanças Globais, com foco em análise de ciclo de vida para fontes de energia em transporte. Ali, integrou iniciativas pioneiras: participou do teste do primeiro ônibus híbrido fabricado no Brasil e do desenvolvimento da primeira planta de biodiesel do país. Antes de ingressar definitivamente na academia, ainda passou dois anos como diretor de planejamento da Superintendência Municipal de Transportes Urbanos do Rio de Janeiro, uma imersão que ele mesmo compara a "um outro doutorado". Em 2006, aprovado em concurso para a UFRJ, trocou a gestão pública pela carreira acadêmica.

Belém e a ANPET além do eixo

O envolvimento institucional com a ANPET começou em 2007, a convite da professora Marilita Gnecco. Por cinco anos, D'Agosto trabalhou nos bastidores dos congressos ao lado de Thereza Afflalo, secretária executiva da associação. O falecimento de  Thereza às vésperas do evento de 2012 deixou a ANPET numa situação delicada, e D'Agosto, que estava ao lado dela naquele trabalho, foi eleito presidente naquele mesmo ano.

A gestão que se seguiu tem uma marca geográfica clara. Quando propôs realizar o congresso em Belém, ouviu ceticismo de colegas. Para D'Agosto, a resistência confirmava a necessidade da iniciativa: a região Norte jamais havia recebido o evento, e a capital paraense oferecia uma realidade de transporte diferente: navegação fluvial, linhas aquaviárias, dinâmicas urbanas que não cabiam nos modelos das metrópoles do Sul e Sudeste. 

Curitiba viria a seguir, e o período também foi marcado pela captação de recursos do Fundo Setorial de Transporte para eventos paralelos, o que trouxe ao congresso grupos de pesquisa em engenharia química, elétrica e civil com projetos aplicados ao transporte.

Difusão do conhecimento e o desafio geracional

Para D'Agosto, o transporte é, antes de tudo, uma "atividade meio",  e ela carrega peso econômico e social direto. "Se eu restrinjo a atividade de transporte, eu retardo o desenvolvimento de uma região. Se eu facilito, estou também facilitando o desenvolvimento." É essa visão que ancora sua atuação como professor titular na área de sustentabilidade na mobilidade e na logística.

Na ANPET, ele enxerga um papel central na difusão desse conhecimento. O congresso e a Revista Transportes funcionam, nessa perspectiva, como instrumentos de circulação e legitimação do saber produzido na área.

Aos 40 anos, a ANPET acumula história, congresso, revista e uma rede de pesquisadores que, em muitos casos, não teriam se encontrado de outra forma. D'Agosto é um deles: chegou à associação ainda no mestrado, como aluno, e chegou à presidência. 

Assista à entrevista completa com Márcio D'Agosto: